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Intervenções Militares dos EUA e da CIA, desde 2ª Guerra Mundial (Cap. 5º)

16/9/2017, William Blum, in Information Clearing House

do Blog do Alok

 

Como aconteceu de a Guerra da Coreia não ter sido objeto de protestos equivalentes aos que cercaram a guerra no Vietnã? Tudo que vimos no Vietnã foi verdade histórica, antes, na Coreia: o apoio dos EUA a uma tirania corrupta, as atrocidades, o napalm, os massacres em massa de civis, cidades e vilas reduzidas a escombros, a gestão planejada do noticiário, sabotagem para desmontar toda e qualquer conversação de paz. Mas os norte-americanos foram convencidos de que a guerra na Coreia teria sido caso indiscutível de um país que, sem provocação, invade outro. Caso de os bandidos atacando os ‘mocinhos’, que estavam sendo salvos por super ‘mocinhos’, sem nem vestígio da dúvida moral, histórica e política que foi o dilema do Vietnã. A Guerra da Coreia ‘começou’ de um modo bem claro: a Coreia do Norte atacou a Coreia do sul, bem cedo na manhã de 25/6/1950. No caso do Vietnã… sempre foi como se ninguém tivesse ideia de como, quando ou por quê a guerra começou.

E praticamente não houve acusações que falassem do “imperialismo” dos EUA na Coreia. Os EUA, afinal de contas, combatia como parte do Exército da ONU. Protestar contra o quê? E, claro, havia o McCarthyismo, tão prevalente no início dos anos 1950s, e que contribuía para inibir qualquer protesto.

Havia de fato interpretações muito diferentes a serem feitas de o que levara àquela guerra, como estava sendo conduzida, até sobre como começou, mas todas sucumbiram na febre da guerra.

Pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, União Soviética e EUA ocuparam a Coreia para expulsar de lá os japoneses derrotados. Traçou-se uma linha demarcatória entre forças russas e norte-americanas ao longo do paralelo 38. Essa linha de modo algum tinha o objetivo de estabelecer dois países, mas a guerra fria logo se intrometeria também ali.

As duas potências insistiam que o objetivo principal e desejado era a unificação de Norte e Sul. Mas, simultaneamente, também queriam ver a unificação feita nos termos e imagem ideológica de cada um dos lados; por causa disso se fixou uma rotina de proposta e contraproposta, acusação e contra-acusação, fartamente misturadas com muitos desvios e falcatruas, e nada foi obtido na direção de qualquer tipo de acordo ao longo dos anos seguintes. Embora as duas capitais Moscou e Washington e seus líderes coreanos escolhidos a dedo não desgostassem de o país estar dividido (melhor meio país que país nenhum), oficiais e cidadãos dos dois lados continuaram a defender genuinamente e sempre a unificação.

O fato de a Coreia ainda ser um só país, e de a unificação continuar a ser o objetivo, foi destacado pelo embaixador dos EUA na ONU, Warren Austin, no momento em que a guerra começou, em declaração que fez pouco depois:

“A barreira artificial que dividiu o Norte e o Sul da Coreia não tem base nem na lei nem na razão. Nem a ONU, sua Comissão sobre a Coreia, nem a República da Coreia [Coreia do Sul] reconhecem aquela linha. Agora, os norte-coreanos, em ataque armado contra a República da Coreia negam a própria realidade de tal linha.” {1}

Os dois lados já há anos viviam em escaramuças, um contra o outro, na faixa do paralelo. O que aconteceu naquele fatídico dia de junho pode portanto ser visto como nada além da escalda de uma guerra civil já em curso. O governo da Coreia do Norte declarou que só no ano de 1949 o Exército da Coreia do Sul ou a polícia sul-coreana cometeram 2.617 incursões armadas em território do Norte, para ações de assassinado, sequestro, pilhagem e roubo, com o objetivo de insuflar tumultos e desordem social, e também para dar treinamento de combate aos invasores. Em algumas dessas ações, disse o governo de Pyongyang, milhares de soldados envolveram-se numa só grande batalha, como grande número de baixas. {2}

Funcionário do Departamento de Estado, o Ambassador-at-large Philip C Jessup, falando em abril de 1950, pôs as coisas nos seguintes termos:

“Há luta constante entre o Exército da Coreia do Sul e bandos que se infiltram no país vindos do norte. Há verdadeiras batalhas, envolvendo talvez mil ou dois mil homens. Quando se chega a essa fronteira, como eu cheguei (…) vê-se movimento de tropas, fortificações e prisioneiros de guerra.” {3}

Vista nesse contexto, a questão de quem disparou o primeiro tiro dia 25/6/1950 tem bem pouco significado. Atualmente, a versão que a Coreia do Norte dá dos eventos é que seu movimento de invasão foi provocado por dois dias de bombardeio pelos sul-coreanos, dias 23 e 24 de junho, seguidos de um ataque-surpresa pelos mesmos sul-coreanos que através da fronteira dia 25 de junho, contra a cidade ocidental de Haeju e outros pontos. Notícia do ataque por tropas do sul foi transmitida por rádio, no Norte, horas depois, na manhã do dia 25 de junho.

Ao contrário da crença geral naquele momento, nenhum grupo da ONU – nem o Grupo de Observação Militar da ONU em campo, nem a Comissão da ONU para a Coreia, em Seul, testemunharam ou declarou ter testemunhado o início das hostilidades. A viagem do Grupo de Observação por terra ao longo do paralelo terminou dia 23 de junho. O que tenha dito sobre o que teria acontecido depois dessa data é especulação ou repetição de informação que o grupo recebeu ou do governo sul-coreano ou de militares dos EUA.

Sobretudo, no início da manhã do dia 26, o Gabinete Sul-coreano de Informação Pública anunciou que forças do sul teriam tomado a cidade de Haeju, na Coreia do Norte. O anúncio informava que o ataque teria acontecido naquela manhã, mas militares dos EUA, num relatório de situação emitido no início da noite de 25 de junho, informavam que todo o território do sul a oeste do rio Imjin River havia sido perdido, numa faixa de cerca de 5 km de profundidade além da linha de fronteira, exceto na área do “contra-ataque” de Haeju.

Seja como for, tal vitória militar das forças do Sul é evento difícil de reconciliar com o relato oficial ocidental, mantido até hoje, de que o exército da Coreia do Norte assaltara o sul em ataque surpresa avassalador, tomando o controle de tudo que encontrou pela frente, e forçando as tropas sul-coreanas a evacuarem mais para o sul.

Subsequentemente, o governo da Coreia do Sul negou que tivesse capturado a cidade de Haeju, atribuindo o anúncio inicial, aparentemente, aos exageros de algum militar. Um historiador explicou o anúncio supostamente falso atribuindo-o a “erro devido às más comunicações, além da tentativa de anunciar alguma ‘vitória’, para com isso estimular a resistência sul-coreana”. Haja o que houver por trás daquele anúncio, é evidente que pouco se pode confiar – se é que se poderia confiar – em comunicados distribuídos pelo governo sul-coreano sobre o início da guerra {4}.

Houve de fato notícias na imprensa ocidental do ataque contra Haeju, que não falam do comunicado do governo da Coreia do Sul, e que parecem ser confirmações independentes, daquele evento. O London Daily Herald, em edição de 26/6, dizia que “observadores militares norte-americanos informam que forças do sul levaram a efeito contra-ataque bem-sucedido próximo à costa ocidental, avançando mais de 5 km em território do norte e tomaram a cidade de Haeju”. A mesma notícia reapareceu no Guardian de Londres, no mesmo dia: “Militares norte-americanos confirmaram que tropas do sul capturaram Haeju”.

Assim também o New York Herald Tribune noticiou, também dia 26/6, que “tropas sul-coreanas atravessaram o paralelo 38, que forma a fronteira, para capturar a cidade manufatureira de Haeju, ao norte da linha. Tropas Republicanas capturaram grande quantidade de equipamentos”. Nenhum dos relatos informa precisamente quando aconteceu o ataque.

Dia 25, o escritor norte-americano John Gunther estava no Japão preparando sua biografia do general Douglas MacArthur. Como conta no livro, estava andando como turista pela cidade de Nikko com “dois membros importantes” da ocupação norte-americana, quando “um deles foi chamado inesperadamente ao telefone. Ao voltar, sussurrou ‘Começou uma coisa grande. Os sul-coreanos atacaram a Coreia do Norte!'” Naquela noite, Gunther e sua equipe voltaram para Tóquio onde “vários oficiais nos receberam na estação, para contar com muito amplificação o que realmente acontecera (…) Não havia qualquer dúvida de que a Coreia do Norte era força agressora”.

E o tal telefonema? Gunther explica: “A mensagem pode ter sido deturpada na transmissão. Ninguém sabia grande coisa no quartel general durante as primeiras poucas horas, e o pessoal foi provavelmente apanhado na corrosiva, flagrante teia de mentiras da rádio da Coreia do Norte”. {5}

Há algo bem pouco crível nesse quadro de pessoal militar e diplomático norte-americanos, todos eles bem treinados anticomunistas, acabarem enganados em assunto tão importante, por mentiras de rádio comunista.

O líder da Coreia do Sul, Syngman Rhee, várias vezes manifestou seu desejo e a prontidão para encaminhar pela força a unificação da Península Coreana. Dia 26/6, o New York Times relembrava aos seus leitores que “em inúmeras ocasiões, o Dr. Rhee indicou que seu exército teria tomado a ofensiva, se Washington tivesse consentido”. O jornal registrava também a mesma informação antes do início da guerra: “A conversa pró-guerra, estranhamente, sempre viera, quase toda, do lado dos líderes sul-coreanos”.

Rhee pode ter tido boas razões para provocar guerra total, além da questão da unificação. Dia 30 de maio, houvera eleições para a Assembleia Nacional no Sul, nas quais o partido de Rhee sofrera pesada derrota e perdeu a maioria da Assembleia. Como incontáveis governantes antes dele, Rhee pode ter decidido jogar a carta da guerra para atrair apoio para seu depauperado governo. Um conselheiro para questões de trabalho ligado à missão norte-americana de ajuda à Coreia do Sul, Stanley Earl, renunciou em julho, divulgando a opinião de que o governo da Coreia do Sul não passava de “regime opressor” que “fez muito pouco para ajudar o povo” e que “teria acontecido uma rebelião interna na Coreia do Sul, contra o governo de Rhee, se as forças da Coreia do Norte não tivessem invadido”. {6}

O líder soviético Nikita Khrushchev, em suas memórias, deixa absolutamente claro que os norte-coreanos consideravam há algum tempo a possibilidade de invadir o Sul, e fala da invasão real sem falar de provocação, naquele mesmo dia.

Poderia ter feito assim, apenas para se livrar dessa específica questão. Mas o capítulo de Khrushchev sobre a Coreia é todo ele relato superficial. Não é – nem foi concebido para ser – trabalho de historiador sério. Como diz o próprio Khrushev: ‘Minhas memórias da Guerra da Coreia são inegavelmente esquemáticas “. (Só viria a ser líder soviético depois do fim da guerra.)

O capítulo não discute qualquer combate que tivesse acontecido antes através da fronteira, nada sobre as declarações beligerantes de Rhee, nada absolutamente sequer sobre a ausência da União Soviética da ONU, crucialmente importante porque, como veremos adiante, permitiu que fosse constituído o chamado “Exército da ONU”, que interveio no conflito. Mas aquelas memórias, como foram pulicadas, são versão editada e condensada das fitas que gravadas pelo próprio autor. Estudo baseado numa comparação entre a transcrição das fitas em idioma russo e o livro publicado em inglês mostra que algumas lembranças de Khrushchev sobre a Coreia eram realmente esquemáticas, mas não é o que o livro mostra. Por exemplo, lá se registra que o líder da Coreia do Norte Kim Il-sung reuniu-se com Stálin para discutir o desejo manifesto de Kim de “arrancar a Coreia do Sul com a ponta de uma baioneta”.

E o livro informa, sem qualquer ambiguidade: “Kim voltou para casa, para retornar a Moscou, quando já tivesse tudo planejado.” Mas na transcrição, o que Khrushchev diz é: “Em minha opinião, nem a data do retorno estava marcada, ou ele nos informaria logo que tivesse posto as próprias ideias em ordem. Daí em diante, não lembro em que mês ou ano Kim Il-sung veio e explicou seu plano a Stálin” {7}.

Dia 26/6/1950, os EUA apresentaram projeto de resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando a Coreia do Norte pela “agressão não provocada”. A resolução foi aprovada, embora houvesse argumentos de que “é luta entre as Coreias” e devia ser tratada como guerra civil, e uma sugestão, do representante do Egito, de que se retirasse a expressão “não provocada”, dadas as hostilidades entre as duas Coreias que se arrastavam há anos. {8} A Iugoslávia insistiu que “não temos informação precisa suficiente para que esse Conselho declare a responsabilidade do Norte” e propôs que a Coreia do Norte fosse convidada a comparecer e explicar seu lado da história. {9} Não aconteceu. (Três meses depois, o ministro de Relações Exteriores da URSS apresentou uma moção requerendo que a ONU ouvisse representantes dos dois lados. A nova moção foi rejeitada por 46 x 6 votos; e, por causa da “agressão” da Coreia do Norte, decidiram convidar só a Coreia do Sul.) {10}

Dia 27, o Conselho de Segurança recomendou que membros da ONU garantissem ajuda à Coreia do Sul “como pode vir a ser necessário para repelir ataque armado”. Nesse momento, o presidente Truman já enviara para combate a Marinha e a Força Aérea dos EUA – entregando ao Conselho de Segurança um fato consumado {11}, tática que os EUA repetiriam várias vezes antes de a guerra acabar. – O Conselho de Segurança tomou sua decisão histórica absolutamente sem qualquer informação confiável, e a partir de informação vinda, toda ela, de um dos lados em conflito. Ato, nas palavras do jornalista, “nem honroso nem esperto”.

Deve-se ter em mente que em 1950, a ONU não era absolutamente nem equilibrada nem neutra. A grande maioria dos membros dependiam pesadamente dos EUA para a recuperação econômica e para se desenvolver. Não havia bloco do Terceiro Mundo, que anos depois construiriam política muito mais independente dos EUA na ONU. E apenas quatro estados do bloco soviético eram membros da organização naquele momento, nenhum deles no Conselho de Segurança. {12}

Nem o secretário-geral da ONU, Trygve Lie, da Noruega, poderia ser considerado neutro, no clima controverso da guerra fria. Em suas memórias, Lie deixa notavelmente claro que não era outsider neutro. Seus capítulos sobre a Guerra da Coreia são pura genuflexão anticomunista e revelam o modo como manobrou a questão. {13} Em 1949, como depois se soube, Lie entrara num acordo secreto com o Departamento de Estado dos EUA para demitir de qualquer função que tivessem na ONU todos os indivíduos que Washington achasse que tivessem inclinações políticas ‘questionáveis’. {14}

A adoção dessas resoluções pelo Conselho de Segurança só foi possível porque a URSS estava ausente da discussão, porque naquele momento boicotava a ONU, que se recusava a dar à China Comunista o lugar de Taiwan. Se os russos lá estivessem sem dúvida vetariam as resoluções.  Essa ausência sempre foi dificuldade insanável para os que insistem que os russos estariam por trás da invasão de que os norte-coreanos são acusados. Uma das explicações mais frequentes é que os russos – como se lia num memorando da CIA – queria “desafiar os EUA, especificamente testar a firmeza da resistência que os EUA faziam à expansão comunista”. {15}

Se se sabe que durante toda a existência da URSS essa mesma análise foi repetida por especialistas norte-americanos em virtualmente todos os casos em que se confrontaram EUA e as esquerdas em todo o mundo, antes e depois da Coreia, já se vê que o teste durava tempo inacreditavelmente longo. E absolutamente não se entende por que motivo os sovietes jamais chegaram a qualquer conclusão.

“O toque final” – escreveu I F Stone –, foi “pôr as forças das ‘Nações Unidas’ sob o comando de MacArthur, sem pôr MacArthur sob o comando das Nações Unidas. Aconteceu dia 7/7/1950, por uma Resolução apresentada conjuntamente por Grã-Bretanha e França. Supõe-se de modo geral que assim se teria estabelecido um Comando Nações Unidas. Na verdade, não aconteceu nada disso.” {16} A Resolução determinava que “todos os estados membros que fornecem forças militares e outros tipos de assistência (…) tornem essas forças e outros tipos de assistência a serviço de um comando unificado sob a autoridade dos EUA”. Determinava também que “os EUA designassem o comandante dessas forças”. {17} Seria o temível MacArthur.

Foi concebido para ser um show norte-americano. Participaram, de um modo ou de outro, militares de 16 outros países e, exceto os da Coreia do Sul, havia poucas dúvidas sobre o real status ou função deles. Mais tarde, Eisenhower escreveu em suas memórias, que quando analisava a ideia de uma intervenção militar no Vietnã em 1954, também como parte de uma “coalizão”, reconheceu que a carga real da operação recairia sobre os EUA, “mas as forças simbólicas fornecidas por essas outras nações, como na Coreia, acrescentaria real status moral a uma aventura que, de outro modo, poderia ser mostrada como exemplo de exercício brutal de imperialismo” {18}.

A guerra, e foi realmente brutal, foi combatida ostensivamente como defesa do regime de Syngman Rhee. Fora dos livros publicados por vários governos sul-coreanos, é muito difícil encontrar uma palavra favorável ao homem que os EUA levaram de volta para a Coreia em 1945 depois de décadas de exílio nos EUA durante a ocupação japonesa em seu país. Levado num dos aviões de MacArthur, Rhee foi rapidamente manobrado até uma posição de destaque e autoridade pelo Governo Militar do Exército dos EUA na Coreia (ing. USAMGIK). No processo, funcionários dos EUA tiveram de pôr fim a um governo provisório, chamado República Popular Coreana, RPC, resultado de vários comitês regionais governantes criados por coreanos proeminentes e que já começara a executar tarefas administrativas como distribuição de alimentos e manutenção da ordem. Os serviços que a RPC pôs à disposição dos norte-americanos recém-chegados foram imediatamente descartados.

Apesar do nome com ecos de comunismo, a RPC incluía vários conservadores; e recebeu deles a posição de liderança. Rhee e os demais conservadores, muito dos quais ainda estavam no exterior quando foram ‘nomeados’, talvez nem se sentissem honrados, porque a RPC, bem examinada, era provavelmente esquerdista demais para o gosto deles, como também para os altos escalões do USAMGIK. Mas depois de 35 anos de governo japonês, qualquer grupo ou governo que prometesse desfazer os efeitos do colonialismo teria de ter algum tipo de tintura revolucionária. Na Coreia, os conservadores haviam colaborado com os japoneses; esquerdistas e outros nacionalistas haviam combatido contra os japoneses; o governo de emergência da RPC necessariamente refletia tudo isso e era, segundo todos os relatos, mais popular que qualquer outro grupo político {19}.

Fossem quais fossem as inclinações políticas da RPC, ao negar-lhe qualquer “autoridade, status ou forma” {20}, o USAMGIKregulava a vida política dos coreanos como se o país fosse inimigo derrotado, não estado amigo libertado de um inimigo comum, com direito à independência e à autodeterminação.

O significado do desmonte da RPC vai bem além disso. John Gunther, que de modo algum pode ser declarado radical, assim resumiu a situação: “Com o desmonte da RPC, a primeira e melhor chance de construir uma Coreia unida foi sumariamente jogada fora” {21}. E Alfred Crofts, membro do governo militar norte-americano naquele momento, escreveu que “o que poderia ser uma agência de unificação do país tornou-se assim um dos 54 grupos em que se dividiu a vida política sul-coreana” {22}.

Syngman Rhee seria o homem de Washington: eminentemente pró-EUA, furiosamente anticomunista, suficientemente controlável. O seu foi governo de latifundiários, colaboracionistas, ricos em geral e outros elementos conservadores que por ali abundavam. Crofts registrou que “antes de os EUA pousarem, era completamente impossível e impensável uma direita política associada no pensamento do povo ao velho governo colonial; mais pouco depois já alimentávamos pelo menos três facções de conservadores” {23}.

Comprometido com implantar o regime de livre empresa, o USAMGIK vendeu grandes quantidades de propriedades japonesas confiscadas, moradias, empresas, matéria-prima industrial e outros valores. Os que mais podiam pagar por esses bens eram colaboradores que haviam enriquecido durante o domínio japonês e outros aproveitadores. “Com metade do patrimônio nacional ‘entregue para ser roubado’, a desmoralização foi rápida” {24}.

Enquanto os russos procederam a rigorosa faxina entre os coreanos do norte que haviam colaborado com os japoneses, o governo militar dos EUA no sul acolhia muitos colaboradores e, de início, até os próprios japoneses, mantidos em posições administrativas e de autoridade, para grande consternação dos coreanos que haviam lutado contra a ocupação japonesa no país deles. Em certa medida, essa gente foi mantida nos antigos postos porque tinham experiência, para manter o país funcionando. Outra razão também sugerida: para impedir que a RPC assumisse qualquer fatia de poder {25}.

E enquanto o norte implementou ampla e efetiva reforma agrária e a igualdade pelo menos formal entre homens e mulheres, o governo de Rhee no sul permaneceu hostil a tudo isso. Dois anos depois aplicou uma reforma agrária limitada, que só se aplicava às antigas propriedades de japoneses. Outra lei de 1949, que cobria também outras propriedades, jamais foi executada, e o abuso do uso da terra continuou nas modalidades já conhecidas e em outras, novas {26}.

O ressentimento da população contra o governo EUA/Rhee foi rapidamente despertado, por causa dessas políticas e, também, por causa da derrubada da RPC e da realização de eleições altamente duvidosas. O governo Rhee tinha tão pouco interesse em fazer eleições limpas e justas que, no início de 1950, já se convertera em grave problema para os EUA, a ponto de Washington ameaçar retirar toda a ajuda se as eleições não acontecessem e se não houvesse grande melhora na situação das liberdades civis. Aparentemente por causa dessa pressão, as eleições realizadas dia 30 de maio foram suficientemente justas a ponto de permitir a participação de elementos “moderados”. Nessas eleições, como já se mencionou acima, o governo Rhee foi fragorosamente derrotado {27}.

O ressentimento manifestou-se na forma de rebeliões frequentes, inclusive com guerrilha nas colinas, desde 1946 até o início da guerra e mesmo durante a guerra. As rebeliões eram desqualificadas pelo governo como ação “inspirada por comunistas” e reprimidas violentamente, mas, como John Gunther observou, “Pode-se dizer com segurança que, aos olhos de Hodge [comandante das forças dos EUA na Coreia] e Rhee, sobretudo no começo, quase todos os coreanos que não fossem extremistas de direita eram comunistas e potenciais traidores” {28}.

O general Hodge evidentemente permitiu que soldados dos EUA participassem na repressão. Mark Gayn, correspondente doChicago Sun na Coreia, escreveu que soldados dos EUA “atiravam contra multidões, faziam prisões em massa, variam as colunas à caça de ‘suspeitos’ e organizavam grupo de direitistas, mercenários e policiais para raids massivos” {29}. Gayn relatou que um dos conselheiros políticos de Hodge lhe garantiu que Rhee não era fascista: “Nasceu dois séculos antes do fascismo – um puro Bourbon” {30}.

Descrevendo a campanha governamental antiguerrilheiros em 1948, o cientista político pró-Ocidente John Kie-Chiang Oh da Marquette University escreveu: “Naquelas campanhas, as liberdades civis de incontáveis pessoas eram frequentemente ignoradas. Frequentemente, moradores das vilas, completamente desamparados, suspeitos de colaborar com a guerrilha, foram sumariamente executados” {31}. Um ano depois, quando uma comissão da Assembleia Nacional iniciou uma investigação dos colaboracionistas, Rhee mandou a polícia invadir a Assembleia: foram 22 presos, dos quais 16, como adiante se comprovou, tiveram costelas e crânio quebrados ou tímpanos perfurados {32}.

Quando eclodiu a guerra, em junho de 1950, estima-se que houvesse 14 mil prisioneiros políticos nos cárceres da Coreia do Sul {33}.

Mesmo no auge da guerra, em fevereiro de 1951, escreveu o professor Oh, houve o “caso Koch’ang”, novamente envolvendo suspeitos de ajudar a guerrilha, “no qual cerca de 600 homens e mulheres, jovens e idosos, foram empurrados pra um desfiladeiro estreito e dizimados a tiros de metralhadora por uma unidade do exército sul-coreano” {34}.

Durante a guerra, prosseguiu um intenso fogo cruzado de acusações dos dois lados, todos acusando o outro lado de cometer todos os tipos de barbaridades as mais atrozes, contra soldados, prisioneiros de guerra e civis, em todos os cantos do país (várias vezes aconteceu de um lado ocupar território do outro lado), todos na luta para superar o outro lado na guerra verbal de superlativos, quase tão feroz quanto o combate.

Nos EUA, produziu-se assim um corpo de mitos populares e lendas urbanas, não diferente do que se viu em outras guerras amplamente aprovadas dentro dos EUA. (Diferente disso, durante a Guerra do Vietnã a tendência à proliferação dos mitos era constantemente combatida com falas e publicações de protestantes bem informados e acadêmicos dedicados a pesquisar atentamente as origens da guerra e que fiscalizavam os desdobramentos, o que lhes permitia construir versões cheias de fatos e dados, que se opunham frontalmente às versões oficiais. Essa atividade dos intelectuais antiguerra do Vietnã não raras vezes influenciou ou forçou a mídia-empresa de massas a fazer o mesmo.)

Estabeleceu-se nos EUA, por exemplo, o consenso de que toda e qualquer brutalidade que acontecesse na Península Coreana seria sempre e indiscutivelmente atribuída aos norte-coreanos. O Caso Koch’ang acima referido pode ser importante como contrapeso que equilibre aquela crença. Referindo-se a esse incidente, o professor britânico coreano Jon Halliday observou:

“Esse relato não apenas ajuda a mostra o nível da violência policial que o lado da ONU cometia, mas também dá alta plausibilidade às acusações feitas pela RPDC [República Popular Democrática da Coreia, “Coreia do Norte”] e pela oposição na Coreia do Sul, de atrocidades e execuções em massa cometidas pelas forças da ONU e do governo Rhee durante a ocupação da RPDC no final de 1950. Afinal, se civis podiam ser fuzilados em massa no sul, por suspeita de ajudar (sequer eram acusados de ser) guerrilheiros – o que dizer do que acontecesse no Norte, onde milhões podiam ser realmente declarados comunistas e militantes políticos? {35}.

O relato de Oh é apenas um de muitos relatos de massacres na Coreia do Sul contra sul-coreanos durante a guerra. O New York Times noticiou uma “onda de execuções [pelo governo sul-coreano] em Seul” em dezembro de 1950 {36}. Rene Cutforth, correspondente da BBC na Coreia, escreveu mais tarde sobre “morte a tiros de civis sem qualquer julgamento, quase sempre ao raiar do dia, ou em qualquer palmo de terreno baldio onde se pudesse cavar uma trincheira e alinhar um grupo de prisioneiros a centímetros do buraco” {37}. E Gregory Henderson, diplomata dos EUA que serviu durantes sete anos na Coreia nos anos 1940s e 1950s, disse que “provavelmente foram mortos mais de 100 mil, sem qualquer julgamento” pelas forças de Rhee no Sul, durante a guerra {38}. Depois de alguns dos massacres de civis no Sul, o governo de Rhee punha-se a atribuir os crimes a soldados do Norte.

Um dos modos pelos quais os EUA contribuíram diretamente para a brutalidade da guerra na Coreia foi a introdução de uma arma que, embora já utilizada nas fases finais da 2ª Guerra Mundial e na Grécia, ainda era novidade para quase todos os observadores e participantes da Guerra na Coreia: o napalm. Eis o que o New York Times escreveu sobre a ação e o efeito dessa arma.

“Um raid de napalm atingiu a vila há três ou quatro dias, quando os chineses estavam em avançada, e nenhum cadáver foi enterrado porque não sobrou ninguém vivo (…) Os moradores na vila e nos campos próximos foram atingidos e mortos e lá ficaram nas exatas posições em que estavam quando o napalm os atingiu – um homem com uma perna sobre a bicicleta, 50 meninos e meninas brincando num orfanato, uma dona de casa estranhamente sem qualquer ferimento aparente, tendo na mão uma página arrancada de um catálogo de Sears-Roebuck onde alguém anotou a lápis “Pedido de Correio n. 3.811.294” por uma “sedutora colcha de cama – Coral, de $2,98″. Deve haver quase 200 mortos no pequeno povoado” {39}.

Os EUA provavelmente também fizeram guerra biológica contra Coreia do Norte e China [como discutido antes, no capítulo sobre a China].

Ao mesmo tempo, a CIA estava sabidamente caçando empenhadamente um único homem para exterminá-lo – o líder Kim II Sung da RPDC. Washington mandou um índio Cherokee, codinome “Buffalo”, para Hans V Tofte, oficial da CIA que servia no Japão, depois que Buffalo concordou com a missão de assassinar Kim II Sung. Prometeram a Buffalo uma considerável quantia de dinheiro se a missão fosse bem-sucedida. Como não foi, nada mais jamais se falou sobre o incidente {40}.

Outra crença muito disseminada nos EUA durante a Guerra da Coreia foi que os prisioneiros norte-americanos estariam morrendo como moscas nos campos da Coreia do Norte por causa da crueldade e negligência comunistas. As chamas dessa questão muito emocional eram sopradas pela tendência dos oficiais norte-americanos a inflar os números. Durante novembro de 1951, por exemplo – muito antes do fim da guerra –, comunicados militares norte-americanos falavam de entre 5 mil e 8 mil prisioneiros de guerra {41}. Contudo, estudo extensivo completado pelo Exército dos EUA dois anos depois da guerra revelou que o número total de prisioneiros ao longo de toda a guerra foi de 2.730 (dos 7.190 mantidos em campos; número desconhecido de outros prisioneiros jamais chegaram aos campos, sendo mortos onde estivessem, por causa da inconveniência de lidar com prisioneiros durante os combates, uma prática que se constatou nos dois lados em luta).

O estudo concluiu que “há evidência de que a alta taxa de mortalidade não foi efeito de maus tratos comunistas (…) mas, muito mais, pela ignorância ou insensibilidade dos próprios prisioneiros” {42}. “Insensibilidade” [orig. Callousness] refere-se aqui à falta de moral e espírito coletivo. Embora nada disso se mencione no estudo, os norte-coreanos várias vezes denunciaram que muitos prisioneiros norte-americanos também morriam nos campos de prisioneiros, por efeito do pesado bombardeio pelos aviões dos EUA.

O estudo, claro, jamais sequer se aproximou de desmentir as apavorantes manchetes servidas durantes três anos ao público ocidental. Também encobriu o fato de que número muito maior de prisioneiros comunistas morreram nos campos norte-americanos/sul-coreanos de prisioneiros – à altura de metade da guerra, o número oficial estava em 6.600 {43} –, embora aqueles campos reunissem número muito superior de prisioneiros que os campos na Coreia do Norte.

O povo norte-americano também foi convencido, e provavelmente assim continua até hoje, que os norte-coreanos e chineses faziam ‘lavagem cerebral’ nos soldados dos EUA. Essa história surgiu para explicar o fato de que número equivalente a 30% dos prisioneiros norte-americanos naquela guerra colaboraram, de um modo ou de outro, com o inimigo e “um homem em cada sete, ou mais de 13%, era culpado de colaboração grave – redigindo relatos desleais (…) ou aceitando espionar ou organizar grupos e serviços para os comunistas depois da guerra” {44}. Outra razão pela qual o mote da lavagem cerebral foi promovido por Washington é que aumentava a probabilidade de que a opinião pública não levasse a sério o que diziam prisioneiros que voltavam ao país com versões diferentes da versão oficial.

Nas palavras de Robert J Lifton psiquiatra de Yale, a lavagem cerebral era considerada entre as massas leigas como “método todo-poderoso, irresistível, inconcebível e mágico, de obter total controle sobre a mente humana” {45}. Apesar de a CIA ter feito experimentos, que começaram nos anos 1950s, para desenvolver tal invencível magia, nem a CIA nem os norte-coreanos ou os chineses jamais a alcançaram. A CIA começou seus experimentos de “controle comportamental” ou “controle da mente” em humanos (provavelmente em suspeitos de atuarem como agentes duplos), usando drogas e hipnose, no Japão em julho de 1950, pouco depois do início da Guerra da Coreia. Em outubro, aparentemente teriam usado prisioneiros norte-coreanos de guerra como cobaias {46}. Em 1975, um psicólogo da Marinha dos EUA, tenente-comandante Thomas Narut, revelou que seu trabalho na Marinha incluíra estabelecer um método para induzir recrutas que não fossem naturalmente inclinados a matar, a fazê-lo sob algumas determinadas condições. Referia-se a esses homens como “pistoleiros” [ing.hitmen]” e “assassinos”. Narut acrescentou que assassinos condenados também foram retirados de prisões militares para se tornarem “assassinos” {47}.

Lavagem cerebral, dizia o estudo do Exército, “tornou-se palavra-coringa, usada para significar tantas coisas que já não tinha nenhum significado preciso” e “significado preciso é indispensável nesse caso” {48}.

“Os prisioneiros, na medida do que psiquiatras do Exército conseguiram descobrir, não eram submetidos a coisa alguma que se pudesse designar propriamente como lavagem cerebral. Na verdade, o tratamento que os comunistas davam aos prisioneiros, embora nem de perto atendesse às exigências da Convenção de Genebra, raramente envolveu crueldade extrema; de fato, parecia mais uma nova e ainda desconhecida mistura de leniência e pressão (…). Os comunistas raramente usaram tortura física (…), e o Exército não encontrou nenhum caso verificável em que a tortura física tivesse sido usada para o específico propósito de forçar um homem a colaborar ou a aceitar as convicções comunistas” {49}.

Segundo o mesmo estudo, contudo, alguns aviadores norte-americanos, dos cerca de 90 que foram capturados teriam sofrido abusos físicos, com o objetivo de arrancar deles confissões sobre guerra bacteriológica. Pode ser indício de o quanto os comunistas ressentiam-se ante o uso desse tipo de arma, ou necessidade de comprovar, de algum modo, alguma coisa que já soubessem, alegação falsa ou simplesmente mentira.

Mas os soldados norte-americanos sempre eram submetidos a doutrinação política por seus carcereiros. Eis como o Exército dos EUA via o processo:

“Nas palestras de doutrinação, os comunistas frequentemente exibiam mapas terrestres com marcas nos pontos de nossas bases militares, cujos nomes eram evidentemente conhecidos pelos prisioneiros. ‘Estão vendo essas bases?’ perguntava o instrutor, batendo sobre o mapa com uma haste de madeira que usava para apontar. ‘São bases norte-americanas – cheias de material de guerra. Vocês sabem que são bases dos EUA. E vocês estão vendo que cercam Rússia e China. Rússia e China não têm base alguma fora dos respectivos territórios. Só por isso já se vê quem é o belicista. Por que os EUA teriam essas bases e gastariam milhões para mantê-las, se não fossem parte da preparação da guerra contra Rússia e China?’ Esse argumento parecia correto e plausível para muitos dos prisioneiros. Em geral, nenhum deles jamais ouvira dizer que aquelas bases mostravam não que os EUA desejassem guerra, mas que só desejavam paz, que as bases lá estavam como parte de vários tratados assinados não para conquistar, mas para impedir a agressão pelos Vermelhos” {50}.

Os comunistas chineses, evidentemente, não inventaram essa prática. Durante a Guerra Civil Norte-Americana, prisioneiros dos dois lados, do Sul e do Norte, receberam doutrinação sobre os méritos respectivos dos dois lados. E na 2ª Guerra Mundial, foram dados “cursos de democratização” nos campos norte-americanos e britânicos para prisioneiros de guerra alemães, e alemães reformados recebiam privilégios. O Exército dos EUA orgulhava-se, sobretudo, de afirmar que prisioneiros comunistas em campos norte-americanos durante a Guerra da Coreia aprendiam “o que a democracia representa {51}.

A prevista agressão chinesa manifestou-se cerca de quatro meses depois do início da Guerra na Coreia. Os chineses entraram na guerra depois que aviões dos EUA violaram seu espaço aéreo repetidas vezes, bombardearam inúmeras vezes território chinês (sempre por “lastimável erro”, quando usinas hidrelétricas no lado coreano da fronteira, vitais para a indústria chinesa, corriam grave risco, e forças dos EUA ou da Coreia do Sul chegavam já à fronteira chinesa, o rio Yalu, ou em vários pontos estavam a poucos quilômetros do rio.

A pergunta que não quer calar é: quanto tempo os EUA esperariam, tentando não entrar em guerra que uma potência comunista vinda do outro lado do mundo guerreasse no México, e que invadisse e bombardeasse cidades de fronteira no Texas, que já se organizasse ao longo do Rio Grande, e fosse comandada por general que ameaçava atacar diretamente os EUA?

O poder de fogo aéreo dos norte-americanos na Coreia servia para assustar. Como aconteceria no Vietnã, foi celebrado no uso de napalm, na destruição de vilas “suspeitas de ajudar o inimigo”, no bombardeio de cidades até não haver nenhuma parede em pé, para destruir barragens e diques, de modo a inutilizar o sistema de irrigação, matar os campos de arroz (…) e em expressões comoventes como “política de terra arrasada”, (ing. “scorched-earth policy“), “bombardeio de saturação” (ing. “saturation bombing”), e “matador operacional” (ing. “operacion killer”) {52}.

“Pode dar adeusinho àquele grupo de vilas!” exclamou o capitão Everett L Hundley de Kansas City, Kansas, depois de um raid de bombardeamento {53}.

“Eu diria que toda, quase toda, a Península Coreana é só confusão, uma terrível confusão” – testemunhou o major-general Emmett O’Donnell perante o Senado, quando a guerra já completava um ano. “Está tudo destruído. Nada há em pé, que valha o nome” {54}.

E aqui, as palavras do venerável guia militar britânico, Brassey’s Annual, no livro do ano de 1951:

“Não é exagero dizer que a Coreia do Sul já não existe como país. As cidades foram destruídas, muitos dos seus meios de sobrevivência erradicados, e o povo reduzido a uma massa dependente de caridade e exposto a influências subversivas. Quando a guerra terminar não se deve esperar nenhuma gratidão dos sul-coreanos, mas deve-se esperar que a lição tenha sido bem aprendida, que de nada serve destruir para libertar. Com certeza a Europa Ocidental jamais aceitaria tal ‘libertação'” {55}.

Mas o pior dos bombardeios ainda estava por vir. Começou no verão de 1952 e foi o modo de Washington para se posicionar em melhor posição para barganhar com os comunistas, em conversações que já estavam em andamento há um ano, enquanto prosseguiam os combates. As longas e amargas negociações geraram outra crença ocidental que tudo invadiu – que as conversações teriam sido frustradas e a guerra prolongada por culpa dos comunistas, de sua intransigência, duplicidade e falta de vontade de fazer a paz.

Esse é capítulo longo e tormentoso da história da Guerra da Coreia, mas não é preciso entrar muito fundo para constatar o fato de que muitas barreiras foram erguidas contra a paz também do lado dos anticomunistas. Syngman Rhee, por exemplo, opunha-se absolutamente a qualquer conclusão que não fosse total vitória, que os dois governos, de Truman e de Eisenhower traçaram planos para derrubá-lo {56}; o que não significa sugerir que os negociadores norte-americanos negociassem sempre de boa fé. A última coisa de que queriam ser acusado seria que tivessem permitido que os comunistas lhes passassem a perna. Em novembro de 1951, lia-se no New York Times:

“O modo objetivo, sem adornos, como número crescente deles [de soldados norte-americanos na Coreia] veem a situação nesse momento é que os comunistas fizeram importantes concessões, enquanto o Comando da ONU, como o veem, continua a impor mais e mais demandas (…) A equipe de negociadores da ONU criou a impressão de que mudam as próprias exigências cada vez que os comunistas dão sinais de que possam vir a concordar” {57}.

Num dado momento nesse mesmo período, quando os comunistas sugeriram que um cessar-fogo e a retirada de tropas da linha de combate poderia acontecer ainda enquanto prosseguiam as negociações, o Comando da ONU reagiu quase como se aqueles movimentos fossem ato vicioso e de beligerância “A posição dos comunistas hoje” – dizia o comunicado do Comando da ONU –, “foi virtualmente de renúncia ao que sempre defenderam, que as hostilidades deviam continuam durante as discussões do armistício” {58}.

Era uma vez, quando os EUA combateram uma grande guerra civil, na qual o Norte tentou reunificar pela força militar o país dividido. Alguma Coreia ou China ou qualquer outra potência estrangeira enviou exército para massacrar norte-americanos, e sempre culpando Lincoln pela agressão?

Por que os EUA escolheram fazer guerra total na Coreia? Apenas um ano antes, em 1949, na luta entre árabes e israelenses na Palestina, e na guerra Índia-Paquistão pela Caxemira, a ONU, com apoio dos EUA, interveio para mediar um armistício, não com envio de um exército para assumir a defesa de um dos lados e expandir os combates. E esses dois conflitos tinham ainda menos de guerra civil, que o caso na Coreia. Se a resposta de EUA/ONU tivesse sido a mesma também naqueles casos anteriores, a Palestina e a Caxemira talvez tivessem acabado num deserto de terra arrasada, como aconteceu na Coreia. O que salvou a Palestina e a Caxemira, e manteve as forças dos EUA bem longe de lá foi, apenas, que nem na Palestina nem na Caxemira o conflito envolvia um lado comunista.*****

Notas

  1. New York Times, 1/10/1950, p. 3.

    2. “The EUA Imperialists Started the Coreian War” é o subtítulo do livro publicado em Pyongyang, Coreia do Norte, 1977, pp. 109-10.

    3. Comunicado por rádio, 13/4/1950, reimpresso no The Department of State Bulletin, 24/4/1950, p. 627.

    4. Para uma discussão da origem imediata da guerra, ver:

  2. a) Karunakar Gupta, “How Did the Coreian War Begin?”, The China Quarterly (London) Outubro/Dezembro 1972 n. 52, pp. 699-716.

    b) “Comment: The Coreian War”, The China Quarterly, Abril/Junho 1973, n. 54, pp. 354-68. São réplicas ao artigo de Gupta na edição n., 52 e a tréplica de Gupta.

    c) New York Times, 26/6/1950. P. 1 – Anúncio da Coreia do Sul sobre Haeju. P. 3 – Anúncio da Coreia do Norte sobre Haeju.

    d) Glenn D Paige, The Coreian Decision(24-30/6/1950) (New York, 1968) ,especialmente p. 130.

    e) I F Stone, The Hidden History of the Coreian War (New York, 1952) capítulo 7 e outros.

  3. John Gunther, The Riddle of MacArthur(London, 1951), pp. 151-2.

    6. New York Times, 25/7/1950, p. 4; 30/7, p. 2.

    7. Khrushchev Remembers(London, 1971) capítulo 11. Estudo da transcrição vs o livro: John Merrill, Book Reviews, Journal of Coreian Studies (University of Washington, Seattle) Vol 3, 1981, pp. 181-91.

    8. Joseph C Goulden, Coreia: The Untold Story of the War (New York, 1982) p. 64

    9. New York Times, 26/6/1950.

    10. Ibid, 1/10/1950, p. 4.

    11. Goulden, pp. 87-8; Stone, pp. 75, 77.

    12. Para mais discussão sobre o viéz da ONU naquele momento, ver Jon Halliday, “The United Nations e Coreia”, in Frank Baldwin, editor , Without Parallel: The American-Coreian Relationship Since 1945 (New York, 1974), pp. 109-42.

    13. Trygve Lie, In the Cause of Peace (New York, 1954) capítulos 18 e 19.

    14. Shirley Hazzard, Countenance of Truth: The United Nations e the Waldheim Case (New York, 1990), pp. 13-22. Em seu livro, p. 389, ele diz que foi o primeiro a usar essa prática.

    15. CIA memorandum, 28/6/1950, Declassified Documents Reference System (Arlington, Virginia) Retrospective Volume, Document 33C.

    16. Stone, pp. 77-8.

    17. O texto integral da Resolução do Conselho de Segurança de 7/7/1950 pode ser lido no New York Times, 8/7/1950, p. 4.

    18. Dwight Eisenhower, The White House Years: Mandate for Change, 1953-1956 (New York, 1963) p. 340.

    19. Para uma discussão da política pós-guerra na Coreia do Sul ver:

  4. a) Bruce Cumings, The Origins of the Coreian War: Liberation e the Emergence of Separate Regimes, 1945-1947(Princeton University Press, New Jersey, 1981) ,

    b) E. Grant Mcade, American Military Government in Coreia(King’s Crown Press, Columbia University, New York, 1951) capítulos 3-5.

    c) George M McCune, Coreia Today (Institute of Pacific Relations, New York, 1950) passim., pp. 46-50 (RPC). Professor McCune trabalhou com o governo dos EUA sobre problemas da Coreia durante a 2ªGuerra Mundial.

    d) D F Fleming, The Cold War e its Origins, 1917-1960 (Doubleday & Co, New York, 1961) pp. 589-97.

    e) Alfred Crofts, “The Case of Coreia: Our Falling Ramparts”, The Nation (New York) 25/6/1960, pp. 544-8. Crofts era membro do Governo Militar dos EUA na Coreia que começou em 1945.

  5. Crofts, p. 545.

    21. Gunther, p. 165.

    22. Crofts, p. 545.

    23. Ibid.

    24. Ibid, p. 546.

    25. Colaboradores: Cumings, pp. 152-6; Mcade, p. 61; McCune, p. 51; mais em outros pontos dessas fontes, e també em Fleming e Crofts. Sobre japoneses e colaboradores manterem os postos para esvaziar a República Popular da Coreia: Cumings, pp. 138-9.

    26. McCune, pp. 83-4, 129-39, 201-9.

    27. Eleição de 1946: Mark Gayn, Japan Diary(New York 1948) p. 398; eleição de 1948: Crofts, p. 546; Halliday, pp. 117-22; eleição de 1950 e alerta dos EUA warning; Fleming, p. 594. Para uma discussão da manipulação, por Rhee, do que seriam eleições honestas em 1952 e depois, e seu governo que foi invariavelmente tirânico, ver William J. Lederer, A Nation of Sheep(W W Norton & Co, New York, 1961), capítulo 4.

    28. Gunther, pp. 166-7.

    29. Gayn, p. 388.

    30. Ibid, p. 352.

    31. John Kie-Chiang Oh, Coreia: Democracy on Trial (Cornell University Press, Ithaca, New York, 1968) p. 35.

    32. The Nation (New York), 13/8/1949, p. 152.

    33. Gunther, p. 171.

    34. Oh, p. 206; ver também New York Times, 11/4/1951, p. 4 para um relato do massacre de entre 500 e 1.000 pessoas em março, no mesmo local, que parece referir-se ao mesmo incidente.

    35. Jon Halliday, “The Political Background”, in Gavan McCormack e Mark Selden, editors, Coreia, North e South: The Deepening Crisis (New York, 1978) p. 56.

    36. New York Times, 11/4/1951, p. 4.

    37. Rene Cutforth, “On the Coreian War”, The Listener (BBC publication, London) 11/9/1969, p. 343.

    38. Gregory Henderson, Coreia: The Politics of the Vortex (Harvard University Press, Cambridge, Mass, 1968 p. 167.

    39. New York Times, 9/2/1951, George Barrett.

    40. Goulden, pp. 471-2. Essa informação deriva da entrevista que Goulden fez com Tofte.

    41. New York Times, 27/11/ 1951, p. 4.

    42. Eugene Kinkead, Why They Collaborated (London, 1960) p. 17; publicado nos EUA em 1959 em versão ligeiramente diferente da publicada como In Every War But One, o estudo do Exército não foi reunido em volume único, mas distribuído em vários relatórios separados. O livro de Kinkead, escrito com plena cooperação do Exército, é composto de um sumário de alguns daqueles relatórios, e entrevistas com muitos oficiais do governo e militares diretamente envolvidos no estudo ou que tinham informação sobre o assunto. Para simplificar, faço referência ao livro como se fosse o estudo. É mérito do Exército que muitos dos resultados do estudo não foram mantidos secretos; ainda assim, o estudo inclui algumas declarações anticomunistas das mais bizarras: mentira na China é punida com pena capital (…) comunistas vivem a vida como animais, da infância à velhice (…) [pp. 190-193].

    43. Keesings Contemporary Archives, 5-12/1/1952, p. 11.931, anúncio dia 31/12/1951, do quartel-general do general Ridgeway.

    44. Kinkead, p. 34.

    45. Robert J Lifton, Thought Reform e the Psychology of Totalism; A Study of brainwashing in China (London, 1961) p. 4.

    46. John Marks, The Search for the Manchurian Candidate: The CIA e Mind Control (New York, paperback edition, 1988), p. 25, baseado em documentos da CIA.

    47. Sunday Times (London), 6/7/1975, p. 1. Narut nesse momento trabalhava num hospital naval dos EUA em Nápoles, Itália, e fez esses comentários numa conferência patrocinada pela OTAN em Oslo, Noruega, na semana anterior.

    48. Kinkead, p. 31.

    49. Ibid, pp. 17, 34.

    50. Ibid, pp. 105-6.

    51. Ibid, p. 197.

    52. Para descrição concisa do “bombardeio do terror” de 1952-53, ver John Gittings, “Talks, Bombs e Germs: Another Look at the Coreian War”, Journal of Contemporary Asia (London) vol. 5, n. 2, 1975, pp. 212-6.

    53. Air Force Communique, 2/2/1951, citado por Stone, p. 259

    54. Military Situation in the Far East, Hearings Before the Senate Committees on Armed Services end Foreign Relations, 25/6/1951, p. 3075.

    55. Louis Heren, “The Coreian Scene”, in Rear-Admiral H G Thursfield, editor, Brassey’s Annual: The Armed Forces Year-Book 1951 (London, 1951) p. 110.

    56. San Francisco Chronicle, 15/12/1977, p. 11, baseado em documentos liberados nos termos da Lei de Liberdade de Informação [ing. Freedom of Information Act].

    57. New York Times, 12/11/1951, p. 3.

    58. Ibid, 14/11/1951, p. 1.

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SENHOR X

Fernando Rosa – Em novembro, ocorrem as anunciadas manobras militares conjuntas na Região Amazônica, envolvendo o Brasil, Colômbia e Peru, além de militares norte-americanos. No início de agosto, o articulista venezuelano Manuel José Montañez advertiu que o Brasil, ou seja, o governo Temer, está apenas servindo de fachada para os EUA. Segundo Montañez, com as manobras que contarão com a participação de cerca de 800 soldados das Forças Especiais, chamadas “Seal”, os EUA buscam articular a “terceirização” das suas operações na região – especialmente contra a Venezuela, diz ele.

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A maior vergonha do Brasil não é a mídia comercial. Seu papel, historicamente, foi o de servir aos poderosos. A quem lhe paga mais. A maior vergonha do Brasil não são os políticos corruptos. Se houvesse Justiça eles não estariam no Congresso nem nas Assembléias Estaduais e nas Câmaras de Vereadores. Para isto uma Ação […]

via Maior Vergonha do Brasil, tribunais agentes de destruição da soberania nacional e popular. — Dinâmica Global

Blog da Boitempo

Por Luis Felipe Miguel.

Lênin interrompeu o manuscrito de O Estado e a revolução antes de escrever o último capítulo. Em seu lugar, colocou um curto posfácio, explicando que o agravamento da crise política russa o tinha impedido de prosseguir: “É mais agradável e mais útil viver a experiência da revolução do que escrever sobre ela”.

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BERTONE SOUSA

Stalin_HitlerEm um texto anterior, discuti algumas características do comunismo a partir do recorte temporal que vai do período da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia ao fim da era Stálin, tomando por base a obra do historiador alemão Gerd Koenen, “Utopia do Expurgo[1]“, uma importante referência para quem quer compreender historicamente o comunismo (clique aqui para ler o texto). Um ponto importante discutido na obra é acerca da relação entre comunismo e nazismo e a qual ele dedica dois capítulos (8 e 10). Portanto, esse texto tentará responder às seguintes questões: o que havia em comum entre nacional-socialismo e socialismo? Quais as diferenças? É possível falar que as duas ideologias se encontravam em campos opostos (direita e esquerda)? Se sim, então por que ambas professavam o socialismo e até fizeram um pacto de não agressão? Se não, então por que guerrearam até a derrota completa e extinção…

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