Peemedebista não pode cogitar reeleição antes de garantir 2016 – e sobreviver a 2017

José Roberto de Toledo – 01 Agosto 2016 | 03h00

Mal a manchete do Estado foi ao ar, Michel Temer já estava divulgando nota de resposta. Declarou-se honrado com “a lembrança” de seu nome como candidato a presidente em 2018, mas disse não cogitar disputar “reeleição”. Reagia à entrevista do novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que afirmara que, se o interino for efetivado pelo Senado e se sair bem, ele seria o candidato natural do “nosso campo”. No mesmo dia, reportagem na Folha de S.Paulo atribuía a ministros idêntico prognóstico.

Pode ter sido um acesso coletivo de servilismo para agradar o chefe, pode ter sido excesso de imaginação, pode ter sido até uma tentativa premeditada de vender otimismo em momento de incerteza. A intenção importa menos do que a consequência. A pronta negativa evidenciou o instável equilíbrio no qual se assenta o governo interino. Temer não pode nem mesmo cogitar 2018 antes de garantir 2016 – e sobreviver a 2017.

Os destinatários inominados da nota foram Aécio Neves e Geraldo Alckmin, que guardavam lugar na fila presidencial de 2018 antes de Temer nem sequer sonhar em sair da penumbra da vice-presidência da República. No grande acordo do impeachment, ele prometeu-lhes que jamais seria candidato.

Até aí pode-se enumerar tudo o que Temer disse sobre a inviabilidade do impeachment de Dilma Rousseff para lembrar que, como profeta político, o interino é um grande poeta. Mas Temer depende dos votos do PSDB para garantir a condenação de Dilma e sua efetivação. Depois, necessitará dos tucanos para aprovar as reformas que diz serem essenciais. Logo, não é questão de compromisso, mas de pragmatismo.

Por isso, talvez o “lançamento” simultâneo da candidatura Temer 2018 tenha mirado outros alvos – não externos, como Alckmin e Aécio, mas de dentro do próprio governo. Nove entre dez emas do Palácio do Alvorada apostam que tanto José Serra (Itamaraty) quanto Henrique Meirelles (Fazenda) sonham refazer a trajetória de Fernando Henrique para chegar à Presidência. Ambos expandem seus feudos para ampliar seu poder dentro do governo.

O “Temer 2018” serve para lembrá-los de que, se tudo der certo, eles não são os únicos que se beneficiarão do eventual sucesso. Há o detalhe de que, hoje, Temer é inelegível, mas quem tem Gilmar Mendes do seu lado não se preocupa com detalhes.

Detalhe mais difícil de superar é mesmo a realidade das urnas. Pesquisa do instituto Ipsos mostrou que a avaliação do presidente em exercício piorou de junho para julho. Novos cruzamentos da sondagem, divulgados aqui com exclusividade, revelam o que pegou mais para a população nesse período de interinidade de Temer: inflação, desemprego e corrupção.

Em um mês, cresceu de 40% para 56% a taxa dos que desaprovam a maneira como Temer combate o aumento continuado de preços. Não é a única causa do aumento da impopularidade presidencial que cai na conta do ministro da Fazenda. A desaprovação sobre como o governo interino está combatendo o desemprego pulou de 44% para 59% – a maior taxa de desaprovação entre todos os itens pesquisados. É injusto despejar tudo em Meirelles, porém.

Outras taxas de desaprovação cresceram muito: no combate à corrupção, subiu 16 pontos; no combate à violência, 15; na reforma política, 14. Mas a economia é a que guarda relação mais estreita com a popularidade. Daí que pioras de avaliação sobre inflação e desemprego tendem a aumentar a tensão entre a área política (PMDB) e a econômica (Meirelles).

O pior para Temer é se continuar o jogo de empurra-empurra entre as duas alas: uma diz que a retomada econômica depende de o Congresso aprovar reformas, e a outra responde que a Fazenda não faz nada além de ameaçar com mais impostos. Nesse passo, Temer não precisa mesmo cogitar 2018 porque mal chegará lá.