por Carlos Loures

Tentando combater a espionagem, entre as proibições que vinham do tempo do Infante e que el-rei D. João consolidara em novas leis, figurava a de vender caravelas aos armadores estrangeiros. Este tipo de barco, com vela triangular ou latina, de concepção simples e, sobretudo, baseada no saber dos artífices que desde há muito construíam os nossos barcos de pesca, implicava uma série de segredos e aperfeiçoamentos técnicos obtidos pelas experiências práticas e, as mais das vezes, fruto da correcção de insucessos. Por isso e por outros motivos Lisboa fervilhava de espiões – seriam, como já disse, mais do que as pulgas que pululam no pêlo de um cão vadio. Misturados com gente leal, abundavam nas taracenas e no arsenal de guerra, onde havia artífices doutras nações. As oficinas dos desenhadores de mapas estavam infiltradas por mestres e aprendizes estrangeiros. As caravelas e as naus engajavam marinheiros que mal falavam português. As legações de outros estados, os comerciantes e banqueiros que se estabeleciam na cidade eram centro de informação que enviavam relatórios, desvelando segredos que, em vão, o rei pretendia manter guardados em Portugal. El-rei D. Manuel, nas suas Ordenações, dizia: «mandamos e defendemos que nenhuma pessoa de qualquer condição que seja não venda aos estrangeiros caravelas»… «nem as vá lá fazer ao estrangeiro». Mas isto era bom de ordenar, mas difícil de cumprir. Estrangeiros, e portugueses corrompidos pelo ouro, faziam chegar a toda a Europa informações de tudo o que aqui ocorria.

 A missão de Lourenço relacionava-se com esta guerra subterrânea, travada com relatórios codificados, mas muitas vezes também com punhais e venenos. E, como em todas as guerras, nesta também havia baixas. A carraca em que seguia como grumete, a Leeuwarden, era, como disse, um navio flamengo. A Flandres é uma região muito povoada, situada a Noroeste da Europa, de rosto aberto ao mar do Norte, abraçada entre as colinas de Artois e a ampla foz do rio Escalda. Rica em cereais e em gado, prosperava nestes tempos, em que outros estados demandavam os mares, por via de uma rede de feitorias e estabelecimentos comerciais, pelo engenho de seus banqueiros e usurários. Quase todos os reis e poderosos da Europa lhes deviam dinheiro. Em 843, pelo Tratado de Verdun, foi criado na região um condado franco, sob a tutela de Carlos, o Calvo. Em 864, Balduíno I assumira a suserania da região, sujeito embora à vassalagem ao reino de França. Cidades como Lille, Douai, Gand e Bruges, prosperaram, obtendo graças ao movimento comunal, cartas de privilégio. Os reis de França não pareciam apreciar este desenvolvimento de vassalos que já quase só o eram de nome. A região, sequiosa de maior autonomia, jogava com as rivalidades entre franceses e ingleses, aliando-se ora a uns, ora a outros. A partir de certa altura, a independência material da Flandres dependia do afluxo da lã inglesa com que ali se fabricavam os tecidos de grande reputação, depois vendidos a bom preço nos mercados da Europa. Em 1384, foi integrada nos domínios do duque de Borgonha, Filipe, também chamado o Audaz. Por morte de Carlos, o Temerário, em 1477, passou para o domínio da casa de Habsburgo pelo casamento de Margarida, filha do Temerário, com Maximiliano I, senhor da casa imperial.

         As relações de Portugal com a Flandres eram boas porque se baseavam não nos ocos princípios e frases bem-sonantes que enchiam os tratados políticos, mas num comezinho interesse comercial, num fluxo de trocas verificado nos dois sentidos. Cerca de meio-século antes (entre 1436 e 1445), o duque de Borgonha, Filipe, o Bom,mandou construir em Bruges um estaleiro naval para fazer face ao esforço de guerra no mar que agora se lhe deparava. Esse estaleiro foi montado e mantido por especialistas portugueses, sobretudo carpinteiros navais. El-rei D. Duarte, fazendo tábua rasa do Tratado de Windsor, que o impedia de prestar auxílio militar a potências terceiras sem o conhecimento de Inglaterra – e não esqueçamos que a Flandres era tributária e aliada da França, inimiga na terra e no mar de Inglaterra – enviou para a Flandres cerca de cem especialistas em construção naval, na sua maioria mestres portugueses (carpinteiros, calafates, petintais, etc.). Ali construíram uma galé e algumas caravelas de diversas tonelagens. A ajuda portuguesa permitiu ainda construir diversos navios em Bruxelas e Antuérpia.

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