Luis Felipe Miguel no Esquerda Caviar
A Folha gasta duas páginas hoje para afirmar que não só ela, mas toda a grande imprensa é crítica ao governo Temer. Mostra várias de suas próprias reportagens e também uma pequena coluna com “Destaques de outros veículos”, destinada a provar a imparcialidade do Estadão, do’O Globo e até da Veja.
O simples fato de que sintam a necessidade desta defesa mostra que as críticas à manipulação da informação estão incomodando.
Mas a defesa se baseia, ela própria, em manipulação. Claro que a Folha apresenta matérias críticas ao governo Temer. É possível que Temer, com o complexo de Luís XIV que tem, se sinta profundamente magoado por estarem falando mal dele e de seus amiguinhos. É possível até que a Folha ganhe um diploma de oposicionismo num teste de “valências” do noticiário, mas isto só mostraria, uma vez mais, as insuficiências deste método.
A Folha colabora com o golpe não por evitar críticas ao governo golpista, mas porque participa do processo de criminalização de Dilma, de Lula, do PT e das esquerdas, endossando as denúncias vazias dos procuradores e juízes reacionários e fazendo vista grossa para a maioria das arbitrariedades da Lava Jato.
A Folha colabora com o golpe não por evitar críticas ao governo golpista, mas por aderir à narrativa que justifica suas inúmeras iniciativas antipovo, com o enquadramento conservador e unilateral de questões vinculadas às contas públicas, reforma da previdência, direitos trabalhistas, reforma do ensino etc.
A Folha colabora com o golpe não por evitar críticas ao governo golpista, mas porque, com elas, constrói a oposição entre o governo Dilma, marcado pela corrupção e levando à destruição do país, e o governo Temer, que até tem um ou outro fruto podre e é atrapalhado, mas está tentando acertar.
A Folha colabora com o golpe não por evitar críticas ao governo golpista, mas porque, mesmo nas críticas, segue um roteiro de ocultação, minimização ou viés. Oculta aquilo que reafirma a ilegitimidade do governo, como o ato falho do usurpador nos Estados Unidos. Minimiza as acusações contra a Lava Jato e contra integrantes-chave do governo golpista – na matéria de hoje, reproduz orgulhosamente uma denúncia de corrupção contra José Serra, mas esquece de dizer que enterrou o caso em 24 horas (e quem lê o resumo acredita que o assunto morreu porque as explicações do ministro foram suficientes). E enviesa todo o debate sobre as questões de fundo.
Faz tempo que o jornalismo sabe que o público espera que ele “bata” nos governantes. É seu papel como “cão de guarda” do interesse público. Mas existe muita diferença entre um combate para matar, com soco inglês nas mãos e todos os outros truques sujos, e uma briguinha ensaiada, um telecatch, que pode fazer rir mas não machuca.
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