Luis Felipe Miguel no Esquerda Caviar

Moro aceitou a denúncia contra Lula, como era óbvio que aconteceria.

As ressalvas que o messias autoproclamado de Curitiba fez seriam, a rigor, desnecessárias. Aceitar a denúncia realmente “não significa juízo conclusivo”. Ter que enunciar isso é apenas indício de sua má consciência. Se o nosso Judiciário fosse sério, Moro não poderia julgar um caso em relação ao qual já demonstrou tamanha parcialidade. Um caso, aliás, no qual ele cometeu tantas discricionariedades, para as quais ele mesmo teve que apresentar suas desculpas públicas. Moro é parte interessada no julgamento de Lula, quando menos porque só um réu condenado permitiria talvez desculpar as barbeiragens que ele cometeu ao longo do processo.
Não existe a menor chance de Lula receber um julgamento justo. É gritante o descompasso entre sua situação (indícios frágeis, processos em estágio avançado) e a de Aécio Neves, José Serra ou mesmo Cunha Golpista (evidências acachapantes, investigações paradas ou quase). Diante dos nossos olhos está se desenrolando uma farsa, sob o aplauso entusiasmado da mídia e, o que é pior, a indiferença criminosa do Supremo Tribunal Federal.
O que incomoda aos perseguidores de Lula não é a suposta corrupção; afinal, dependendo de onde venha, eles convivem muito bem com ela. Tampouco incomoda a eles o que incomoda a mim (politicamente, pois não constitui crime), que é sua amizade com o grande empresariado. O que incomoda a eles é que ele representa o trabalhador que não sabe permanecer no seu lugar. O trabalhador que ousa ocupar as posições que a elite brasileira monopoliza há 500 anos.
O Brasil é tão atrasado que não consegue aceitar nem mesmo aquilo que o capitalismo promete, que é a possibilidade de mobilidade social. Mais de 120 anos depois da abolição, as classes dominantes brasileiras continuam nostálgicas da escravatura. Lula é culpado por ter sido presidente. Lula é culpado por ter pensado em comprar um apartamento, por frequentar um sítio com seus netos. Moro se julga um messias, mas é só o feitor que a casa-grande escolheu para restaurar a ordem.
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