quarta-feira, setembro 07, 2016 Wilson Roberto Vieira Ferreira

Em seu editorial “Fascistas à Solta” de 02/09 o jornal “Folha de São Paulo” exige a repressão mais dura aos “fanáticos por violência”, jovens desarmados que insistem em gritar “Fora Golpista” nas ruas.  Como explicar um jornal que um dia foi sintonizado com o espírito do seu tempo, quando deu visibilidade às “Diretas Já” e tornou-se modelo de modernização do Jornalismo, como pode a “Folha” terminar dessa maneira? Naquele momento jovens ocupavam as ruas exigindo eleições diretas. Por que hoje a mesma Folha, orgulhosa da “revolução gerencial da mídia brasileira” do “Manual de Redação”, é incapaz de perceber o limiar de uma nova geração que também clama por eleições diretas? A Folha, no meio impresso, padece do mesmo mal da Globo, no meio audiovisual: o tautismo (autismo + tautologia). E a origem desse tautismo pode estar no próprio Projeto Folha iniciado em 1984 cuja contradição era confundir o conceito de opinião pública com uma relação privada de consumo com seus leitores.

Esse episódio ficou conhecido como “O Encontro de Nova York”. Eram meados dos anos 1970 e o Golpe militar de 1964 já mostrava sinais de esgotamento quando o general Geisel iniciou o processo de abertura e reduziu a força dos militares. Nesse momento se encontraram em Nova York o jornalista Claudio Abramo, Otávio Frias Filho e o seu pai. Conversaram por horas sobre o que seria o Brasil dali para frente e Abramo expos a necessidade de o jornal Folha de São Paulo mudar para acompanhar os novos tempos – um novo jornalismo que apostasse na redemocratização, o que significaria uma oportunidade de ampliação de mercado.

Frias Filho teve na época a sensibilidade de perceber os novos tempos que estavam por vir e a necessidade de mudanças.

Era o início do chamado Projeto Folha, conjunto de medidas que modernizaram o jornalismo brasileiro – um projeto editorial que estabelecia novas bases doutrinárias com a publicação do Manual de Redação que sistematizou normas de escrita e conduta; e a implantação de instrumentos de controle de produção.

O Projeto ganhou força na campanha das Diretas Já e a incessante cobertura da Folha, enquanto o restante da grande imprensa tentou ignorar até o penúltimo momento.

Mais de 30 décadas depois, vemos esse mesmo jornal investir furiosamente contra os manifestantes anti-Golpista em um editorial que os qualifica de vândalos, baderneiros e fascistas, além de exigir que a polícia “reprima” mais duramente os “grupelhos extremistas” e “fanáticos por violência” – leia o editorialaqui.

E mais: a sede do jornal teve que ter sua sede protegida pela polícia diante da ameaça de manifestantes que prometiam um escracho contra o jornal.

Por que um jornal que conseguiu captar o espírito do seu tempo ao apoiar as Diretas Já, reinventou-se e passou a ser influente e admirado, termina dessa maneira?

Naquele momento jovens ocupavam as ruas exigindo eleições diretas. Por que hoje a mesma Folha, orgulhosa da “revolução gerencial da mídia brasileira” do Manual da Redação por três décadas, é incapaz de perceber o limiar de uma nova geração que também clama por eleições diretas?

Tautismo e o Projeto Folha

Será que podemos dizer que Folha envelheceu junto com o seu leitor e toda uma geração de políticos como o desinterino Temer Golpista?

Arrisco a dizer que a Folha, no meio impresso, sofre do mesmo mal que a Globo, no meio audiovisual: o tautismo. Para aqueles não familiarizados com esse conceito, o tautismo (autismo + tautologia) se refere ao mal de todos os sistemas que se hipertrofiam – tornam-se ao mesmo tempo redundantes e cegos ao mundo exterior. Tornam-se tão grandes e complexos que se auto-organizam e se fecham ao mundo exterior.

Ou detalhando melhor, até há alguma troca de informações com aquilo que está fora do sistema, mas o input é traduzido a partir a partir de uma descrição que o sistema faz de si mesmo – sobre isso clique aqui.

O tautismo já existia em germe no Projeto Folha desde o seu início em 1984. Na sua superfície doutrinária, o Projeto se preocupava com o apartidarismo, o pluralismo e o profissionalismo. Mais além, o Projeto adotou radicalmente a opção de administrar a Redação como uma empresa industrial moderna.

Porém, havia uma contradição interna: a Folha apresentava-se como um jornal com independência editorial por praticar um jornalismo que não presta contas a ninguém  salvo ao leitor. A versão do Projeto Folha de 1985 definia a base sociológica do jornal como “um grupo heterogêneo constituído”, ou seja, a própria sociedade e a opinião pública. Porém surge a contradição: como a Folha queria estabelecer uma ponte entre esfera pública e sociedade civil se a única realidade social que reconhecia era na realidade seu grupo de leitores?

Obsessão em falar de si mesma

Nas campanhas publicitárias, a Folha apresentava-se como “de rabo preso com o leitor”. A confusão que a Folha fazia entre uma relação privada com seus leitores e a opinião pública somente se equiparava com a obsessão do Projeto e do próprio jornal no dia-a-dia falar de si mesmo.

Umberto Eco acreditava que os sistemas audiovisuais, principalmente a TV, estava deixando de ser uma janela aberta para o mundo para se configurar naquilo que chamava de “Neotevê”: uma televisão que passaria a maior parte do tempo falando de si mesma e do seu contato com o receptor – sobre isso clique aqui.

Ora, essa descrição de Eco, uma das bases teóricas para o diagnóstico do tautismo dos sistemas contemporâneos, pode ajudar a compreender as consequências dessa contradição interna do Projeto Folha desde o início.

Quanto mais as fases do Projeto Folha se sucediam, o jornal parecia se interessar apenas em falar muito mais de si mesmo do que do mundo exterior. Chamava isso de “transparência” e “respeito ao leitor”. Mas essa relação privada com o leitor que se camuflava como pública era o tautismo em germe.

A divisão do jornal em cadernos chegava ao paroxismo da publicação de cadernos especiais onde se explicava o novo projeto gráfico do jornal ensinando didaticamente para o leitor a função de cada centímetro por coluna da edição.

A instituição do Ombudsman, para gerar credibilidade ao veículo por supostamente reproduzir o ponto de vista e a voz do leitor, apenas reforçou ainda mais a metalinguagem e auto-referência do veículo. Além de ser um exemplo relação autista com o mundo externo: o ombudsman seleciona os textos a serem publicados, já que não há espaço para tudo que é enviado pelos leitores. Por isso, escolhe os assuntos que deseja discutir em cada edição.

Números aos invés dos fatos

De eleições passando por debate políticos na TV até chegar a jogos de futebol, a Folha começou a basear seus textos informativos, análises e comentários aos números gerados pelo Datafolha.  Qual a porcentagem de posse de bola no jogo da seleção brasileira? Percentualmente, qual a área do campo mais acionada por cada jogador dos time?

De repente tínhamos comentaristas não mais preocupados em discutir o jogo ou as informações das suas fontes. Passaram a comentar os números do Datafolha e não mais os fatos em si.

Era como se os números atribuíssem a aura de imparcialidade e credibilidade a textos jornalísticos cada vez mais tautistas e ausentes do mundo real. É inegável que essa obsessão por metalinguagem e auto-referência era uma estratégia de marketing institucional e fortalecimento da marca Folha no mercado.

O jornalista “Perfil Folha”

Tanto que acabou por contaminar os próprios jornalistas que passaram a ostentar orgulhosamente um chamado “perfil Folha” – ouvi essa  expressão do próprio Carlos Eduardo Lins da Silva, um dos principais responsáveis do Projeto Folha.

Arrogância, pedantismo, discurso messiânico como porta-vozes de tudo o que seria de mais moderno (por exemplo, Matinas Suzuki em um afetado texto sobre a Copa do Mundo de 1986, previa que na África estaria tudo de mais moderno no futebol…) e yuppismo cultural eram marcas registradas dos jornalistas da Folha, apesar da alta rotatividade dos quadros da Redação, barateamento da mão de obra e precarização do trabalho com a contratação de freelas fixos.

Mas apesar desse tautismo incipiente era inegável que a Folha conseguia sintonizar-se com o espírito da época, principalmente os debates artísticos e intelectuais. Como professor universitário, ficava surpreso com o sincronismo entre o que era discutido em sala de aula para, na mesma semana, temas correlatos aparecerem em cadernos como o Folhetim e mais tarde o Caderno Mais.

Além de representar interesses de classe e uma elite predatória que não quer abandonar seus privilégios, o assombroso editorial da Folha representa o desdobramento final do Projeto Folha e a sua dialética: o tautismo. Após décadas de metalinguagem, auto-referência e comunicação  fática (confundir a relação com o leitor como fosse a opinião pública), a Folha chega ao destino fatal do Projeto.

A Folha sofre do mesmo mal da Globo, mídias terminais (impresso e audiovisual) que se fecham em si mesmas para tentar se salvar do próprio futuro.

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