“A profundidade do (seu) pensamento consiste em ver apenas as nuvens de poeira à superfície e em expressar presunçosamente essa poeira como algo misterioso e significativo”, Marx [1]

Cartoon de J.R. Mora.1 – Os “comentadores” no seu labirinto

“Analistas” e “comentadores” esforçam-se por parecer superiormente sapientes, mas sem nunca tocarem nos interesses da oligarquia. O que sai fora do nihil obstat neoliberal é dado como herético, blasfemo. As causas que originam e agravam as crises não são averiguadas, apenas se tergiversa sobre a conformidade com os dogmas neoliberais e as sacrossantas “regras da UE”.

As suas “análises” não vão além da nuvem de poeira a que Marx se refere. O extremismo liberal foi defendido como “medidas corajosas”, “impopulares mas necessárias”, “o bom caminho”, “o que tinha de ser feito” e “que estava a resultar”. Porém, vistas as consequências e aproximando-se eleições, passaram a ser veladamente criticadas, mas apenas por a sua aplicação ser feita “sem adequada explicação”, (leia-se manipulação) apesar do quase monopólio (des)informativo, ou seja: não se mentiu o suficiente…

Face a um rumo que reverteu algumas políticas de austeridade, as suas análises multiplicam conjecturas, acentuando “incertezas” quanto ao défice, ou seja, à submissão aos iníquos e absurdos tratados da UE, à falta de “confiança” dos mercados” e investidores, algo que com a política de direita simplesmente omitiam ou tentavam justificar, apesar do aumento da pobreza, do endividamento, da queda do PIB, e da FBCF em termos líquidos ser negativa.

Os mesmos que consideravam que “o emprego não pode ser mantido a todo o custo sob pena de prejudicar o crescimento e bem-estar” mostram-se preocupados com o elevado desemprego; os mesmos que justificavam o saque fiscal da direita, propagandeiam aumentos de impostos, nunca referindo os 600 milhões de mais austeridade com que a direita se tinha comprometido em Bruxelas.

O papel dos “comentadores” é semelhante ao dos cortesãos feudais, aconselhando os senhores a mudarem alguma coisa mas sempre no interesse destes. O seu discurso dominante atual não vai além do que é admitido pelos “senhores” – os oligarcas – nem sai fora dos temas promovidos pelas centrais de (des)informação a nível internacional. O jornalismo independente e deontologicamente profissional foi varrido pela precariedade e pelo mercenarismo de “especialistas”/propagandistas.

Está mais que provado que esta UE é irreformável, mas vislumbram miríficas “boas intenções” de Junker e Draghi, que apenas refletem o extremismo neoliberal, enaltecidas num fixismo escolástico, de quem não tem mais soluções do que prosseguir as mesmas políticas. As eventuais “críticas”, para parecerem ter um pensamento independente, limitam-se à forma como são aplicadas. Tudo devidamente recheado de banalidades.

Embora por vezes aparentemente não defendam o mesmo, as diferenças entre estes “comentadores” e “analistas” são como na música: interpretações da mesma partitura: a do “consenso” neoliberal”, símbolo da esquizofrenia política que contaminou “europeístas”. Trata-se apenas de uma anestesia de boas intenções, mascarando as políticas de direita como “moderadas” e “realistas”, para parecerem que estão do lado das inquietações e insatisfação das pessoas.

É um discurso vazio que faz por ignorar as causas dos problemas, tendo o cuidado de nunca admitir a hipótese de um sistema diferente. Depois de terem feito o possível por defenderem ou escamotearem o descalabro das políticas de empobrecimento, desemprego, emigração em massa, falências das MPME e famílias agora, revertidos alguns aspetos da austeridade, procuram levar para a opinião pública hipotéticos cenários de catástrofes. A redução da austeridade é mesmo facciosamente qualificada de “facilitismo”: “quando tudo parecia nos trilhos certos (!) eis que voltamos ao espírito da facilitação”.

Os comentários, contradições, tergiversações sobre a aplicação de “sanções” pela UE daria um case study sobre o papel dos media ao serviço da direita. Com o apoio dos seus apaniguados a direita instituiu a mentira como sistema político. Os casos do BES, Banif, as promessas eleitorais do PSD e CDS, as mentiras, promessas, garantias dadas no parlamento pelo primeiro-ministro e pela ministra das Finanças, a manipulação de estatísticas sobre o emprego, dados da segurança social, etc., mereciam uma antologia de como a democracia ao serviço do grande capital pode ser pervertida.

2 – Os consensuais fetiches vigentes nos media

Chamamos fetiche àquilo a que se dedica um interesse obsessivo ou irracional. Os mediáticos comentadores são incapazes de admitir algo que se afaste das suas obsessões, dos seus fetiches ou daqueles para que são convocados.

Porquê fetiches? Porque contra as evidências os efeitos são os contrários do que gritantemente proclamaram e continuam a garantir com dogmática obsessão como se se tratassem de verdades científicas ou talvez revelações divinas. Um texto de Jaques Sapir [2]mostra como descabeladas mentiras foram e são apresentadas como verdades científicas para impor à maioria dos povos da união monetária um verdadeiro pesadelo.

É ainda o caso dos “consensos” sobre as “regras europeias”, dos limites arbitrários do Tratado Orçamental, “regra de ouro” (para quem?!) dos “europeístas”, pela qual a burocracia europeia pode aplicar sanções e exercer toda a espécie de chantagens sobre os povos.

Temos o fetiche do investimento estrangeiro e da criação de confiança aos “investidores”, que se tornou como que um mandamento religioso, negando ao Estado o papel de estratega na organização económica e na redistribuição da riqueza criada. Isto numa atitude de servilismo perante o grande capital estrangeiro, dado que ao Estado não é permitido investir no aparelho produtivo, planear a economia, estabelecer o controlo público dos sectores estratégicos, incluindo em muitos casos a nacionalização.

A partir das privatizações o grande capital obteve monopólios em simulacros de investimento. Foi na realidade, efetivo desinvestimento a partir de manobras financeiras. Nos primeiros seis meses do ano, um conjunto de apenas oito empresas privatizadas (EDP, Galp Energia, Santander Totta, Navigator, EDP Renováveis, REN, CTT e Brisa) obtiveram 1,33 mil milhões de euros em lucros, cerca de metade do défice público no mesmo período [3] . Eis portanto como funcionam as “regras europeias” e a “eficiência” privada monopolista, tão decantada pelos “comentadores”.

A pretendida “confiança e credibilidade” dos mercados é obtida entregando ao grande capital a riqueza nacional, reduzindo os seus impostos, impondo austeridade, privatizações e PPP, suprimindo direitos laborais. A confiança e credibilidade perante os cidadãos pouco ou nada conta.

Outro fetiche é o da competitividade ligado ao dogma do comércio livre e do equilíbrio dos mercados competitivos, forma de impor as reformas estruturais, com que a UE prossegue metódica e implacavelmente o aumento da exploração. As “leis do mercado”, dogma dos “analistas” e “comentadores” não são mais que a legalização do saque e da expropriação dos mais fracos. Claro que os “críticos” vão falando na “necessidade de regulação”, só que os “mercados” não querem…

Os “tratados de comércio livre” como o TTIP, induzidos pela avidez das transnacionais não sofre contestação, quando muito limitam-se a vagamente defender alguma cosmética para se manter o essencial. A propaganda apresenta-os como um paraíso com bens mais baratos para os consumidores, ignorando as consequências para o emprego e o desenvolvimento da estrutura produtiva, bloqueada pela lógica das “vantagens comparativas”. Caluniam como “protecionismo” o controlo do comércio externo no âmbito de uma economia planeada.

O fetiche da estabilidade financeira e dos “riscos sistémicos” viciou o grande capital no parasitismo e na vigarice da especulação e da usura, que conduziram a intermináveis crises. Perante os mercados financeiros, adotou-se uma atitude de superstição, como se se tratasse de um poder absoluto perante o qual os povos têm de se submeter de forma tão desprovida de meios como os povos medievais perante a peste. Os especuladores, ditos “investidores”, são considerados semideuses e nada se pode fazer à revelia dos seus interesses.

Tudo isto resume a “democracia e economia de mercado” que defendem, mas que afinal não é uma coisa nem outra. Como dizia Mário Draghi “Há muitas razões políticas para atrasar as reformas estruturais, mas poucas razões económicas para o fazer. O custo de as atrasar é demasiado elevado” [4] Mas elevado: para quem?

3 – O anticomunismo como último recurso

Falar do socialismo e da URSS, tentar dissipar a mentira, a deturpação dos factos históricos é um exercício tão difícil e mal entendido como na primeira metade do século XX defender direitos iguais para as mulheres e que a homossexualidade não seria um crime ou uma doença.

Por isso são totalmente escamoteados os dados sobre as diversas realidades na URSS desde a sua formação, bem como o que as sondagens revelam acerca da opinião dos povos da ex-URSS sobre o socialismo.

No combate contra o progresso social os propagandistas servem-se como último recurso das calúnias vertidas no anticomunismo. Contra o PCP, partido mais que qualquer outro lutador e fundador da democracia e da Constituição de 76, além de correntemente ser discriminado e deturpado, lança-se a velha calúnia do “partido estalinista”, o que quer que isto queira dizer e que correspondência tenha com a realidade.

Para condimentar o primarismo afirma-se: “um partido que até está presente nas comemorações do 1º de MAIO em Cuba”(!). Acusam-se os sindicatos de serem “um poder não escrutinado”, “não se sabe quem representam”; e as portarias de extensão da contratação coletiva um escândalo. (Helena Matos)

Para a direita, a contratação coletiva, é de facto uma “imperfeição” no “paraíso” neoliberal! Claro que nada os incomoda, muito pelo contrário, que os burocratas da UE sejam um poder não escrutinado e também não queiram saber quem representam. Mas sabe-se: a oligarquia.

Para a defesa do neoliberalismo, uma prática que além do enriquecimento dos mais ricos, só produziu crises económicas e sociais, apontam o fantasma de um hipotético “modelo soviético” que eles próprios inventam, baseando-se nas calúnias de que se apropriaram. Como se a questão de não existirem “modelos” nos processos de transição entre formações económicas e sociais diferentes, não estivesse há muito definida no marxismo-leninismo. Mas o que os enerva não são os “modelos”, são os princípios…

Tudo isto se explica, pela necessidade que os propagandistas têm de combater pela mentira a admiração que os povos sentiam pela URSS e demais países socialistas, que pelo seu exemplo conduziram à aquisição de amplos direitos económicos e sociais pelos trabalhadores, agora a serem liquidados.

É assim que a luta pelos direitos e melhores condições de vida pelos trabalhadores é caluniada como “ameaça comunista”. Porém, o militarismo, agressões, criminosos golpes de Estado do imperialismo são defendidos como sendo sempre em nome da paz, dos direitos humanos, da “segurança” e justificados com provas do mesmo tipo que as das armas de “destruição maciça” do seu ex-aliado Saddam.

4 – Objetivo mediático prioritário: promover os interesses oligárquicos

Os interesses oligárquicos são apresentados como destinados a “libertar os povos do governo”. A fórmula encontrada para a “economia de mercado” consiste em subverter a democracia, fomentar a disfuncionalidade do Estado democrático e criar o máximo de insegurança económica aos trabalhadores, considerando os direitos laborais privilégios antieconómicos e…injustos.

A filosofia política deste sistema é a de um Estado permissivo para o grande capital em nome da eficiência – eufemismo para elevados lucros – e repressivo para a força de trabalho em nome da concorrência. Por isso, dizem, “é fundamental que a autoridade do Estado seja exercida com determinação”. Idênticas teses encontram-se no fascismo. Porém, são assumidas pela social-democracia no papel que lhe cabe de garantir os interesses capitalistas.

A certos “comentadores” cabe o papel de “críticos acríticos” [5] plangendo pelo “sonho europeu” inicial, isto é…um outro neoliberalismo. Porque é disto que se trata desde o início da CEE/UE!

A retórica dos “analistas” tenta mascarar que defendem uma sociedade sem projeto coletivo, políticas subordinadas aos interesses financeiros dominantes, povos sujeitos à chantagem de sanções, factos consumados …inevitabilidades. Tudo se resume a austeridade permanente e que instituições burocráticas internacionais limitem liberdades políticas, condicionem interesses nacionais e que os trabalhadores se desliguem dos seus sindicatos de classe…em nome da liberdade contratual, obviamente!

Uma má política é como uma má medicina: pior que a própria doença. Falsos médicos para as mazelas da sociedade, iludem a sua incapacidade com uma falsa segurança dogmática própria da imbecilidade ou do oportunismo. São ambos de Golpista.

O que está em causa é a transferência de mais-valia para a usura e a especulação e países impedidos de decidir prioridades nas suas despesas e nas suas receitas.

O desenvolvimento económico e o progresso social não virão de “mais Europa”, pelo contrário só serão possíveis pela luta dos povos para se libertarem do reacionarismo dos agentes das oligarquias. Só assim será possível estabelecer uma verdadeira cooperação entre países dotados de iguais direitos e plena autodeterminação, podendo ter como meta o socialismo.

É por demais evidente face à total incapacidade do sistema atual corresponder às necessidades dos povos que são necessárias mudanças de fundo na economia e no social. E esta situação impõe de novo como exigência uma revolução democrática e nacional.

Notas
[1] O Capital, Livro III, tomo VII, Ed. Avante, p. 400.
[2] O euro e as mentiras
[3] www.abrilabril.pt/…
[4] Mário Draghi, presidente do BCE, Fórum Económico de Bruxelas, em 09/06/2016 (Lusa)
[5] Crítica da crítica acrítica

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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