A vampiragem interina, ou desinterina, está completa: um sem número de delatados, indiciados e pendurados em falcatruas citadas aqui e ali.


José Carlos Peliano

Antonio Cruz / Agência Brasil

Com certeza e certamente nossos mestres clássicos vêm se revirando em seus túmulos há tempos. Nós, os alunos, não temos captado suas mensagens, multo menos aprendido na prática diária como conviver honestamente entre nós em sociedade, praticando ou não a política como profissão. Afinal, nós todos somos animais políticos.

Sob o esplêndido solo grego, beneficiado pelas artes e dons da natureza, Platão, o artífice da filosofia, e Aristóteles, seu discípulo, não descansam mais em paz diante dos séculos de conflitos, invasões, guerras e corrosão política e social de toda ordem que rondaram e ainda rondam o desfile histórico de nossa civilização.

Platão via a democracia como o estado ideal onde predominasse o exercício e a vivência da liberdade, sem a mão pesada do poder real ou religioso, da tirania ou do comando de grupos oligarcas. O estado serviria à comunidade em seus mais diversos objetivos, expressões e interesses sempre em busca do bem estar de todos.

Já Aristóteles deixou seu legado para a antiguidade clássica e a Idade Média na perspectiva de priorizar objetivos e meios de alcançar o bem comum. Substituiu o estado ideal de Platão pelo exercício do equilíbrio e da moderação na prática política e no exercício do poder.  

Defendeu a participação de ricos e pobres no governo de maneira paritária, indicando que a maioria deveria estar com os mais pobres porque eram eles a massa mais numerosa da comunidade. Assim, todos os cidadãos seriam admitidos nos cargos públicos sob o princípio geral de que soberana é a massa e não a lei.

Aprimora Platão o francês Rousseau no século 17 ao defender a democracia como a forma mais legítima de governo. Ressalta a soberania popular expressa no poder de legislar de todos, no exercício do consenso e no enfrentamento da desigualdade social. E, por extensão, política.

Sob essa ótica, o governante, seus administradores e demais agentes e representantes de toda a ordem social e política são comandados pelos direitos e interesses soberanos do povo.

Encurtando as citações dos filósofos aparece o grande presidente americano Abraham Lincoln que define democracia de forma lapidar, na verdade juntando as contribuições anteriores numa frase definitiva: governo do povo, pelo povo e para o povo.

A soberania do povo, consubstanciada no governo do povo, pelo povo e para o povo, é a cara da democracia. Tudo o mais é imitação barata, máscara, farsa, pantomima, tirania, ditadura.

Todo o governo que se utiliza de subterfúgios regimentais, atropelamentos legais, indiciamentos falsos, desvios de funções, acobertamentos de injustiças e corrupção, não é parte e nunca assim o será de uma república, soberana, justa e participativa.

Na verdade, toda a democracia que se preze não pode ser unicamente ao fim e ao cabo representativa. Deve ser ao mesmo tempo direta também, onde for possível exercê-la. Daí a solução substantiva da democracia participativa. Nela o povo soberano pode intervir na manutenção, condução, monitoramento e aprimoramento da república.

O perigo e o castigo de não ser participativa são o de conviver com a corja de corruptos, usurpadores, golpistas e vampiros. Demônios que trazem a vida democrática ao inferno da injustiça, do arbítrio, da mentira, da desigualdade e do fundamentalismo.

Da democracia à demoniocracia, portanto, é um pulo. Basta apostar todas as fichas na democracia representativa que conta apenas com um Parlamento de maioria de juízes, um Judiciário com predomínio de políticos, uma procuradoria geral mas seletiva e parcial e uma Presidência sujeita a golpes, contragolpes, chuvas e trovoadas.

E ainda viver sob um período longo de uma farsa grotesca: um processo de impedimento anticonstitucional, um Supremo faz-de-contas, um Congresso de pelo menos 300 picaretas, como já lembrado por Lula, uma mídia que é verdadeira comídia, porém nefasta e imbecilizante, uma procuradoria que muito procura e pouco acha.

E uma maioria dos eleitores que foram chamados a votar e elegeram uma representante ser substituída fraudulentamente pelos 300, não os de Esparta, mas de Espertos.  Sobra a democracia direta: botar a boca no trombone das ruas, praças, esplanadas, corredores, auditórios, salas, refeitórios e elevadores.

Não é, portanto, governo do povo, mas de bandidos; nem pelo povo, mas para eles mesmos, amigos, apaniguados e corruptos; tampouco para o povo, mas para as empresas, especialmente as multinacionais, que começam a comprar o Brasil da forma mais deslavada e entreguista possível.

Vivemos uma demoniocracia. Na presidência, atua um mordomo com cara de filme de terror, um vampiro portanto, como já dizia outro que não era santo, Antônio Carlos Magalhães; secundado por outro de semelhante papel nas relações exteriores, cantado em vários cantos por humoristas, chargistas e comediantes.

Aliás, José Simão já alcunhou também o mordomo de Frankstemer, o que o torna ao mesmo tempo um vampiro e um remendado, ao final uma caricatura grotesca dele mesmo. Enquanto o secundado mais parece uma moto serra com a infeliz função de retalhar o país para vende-lo a granel.

Completa a vampiragem interina, ou desinterina, oficial mas não legítima,  um sem número de delatados, indiciados e pendurados em falcatruas citadas aqui e ali. Se Deus é brasileiro, como sempre se disse, acho que ele se cansou e foi proteger outras repúblicas mais próximas à democracia do que a nossa.

Seria cômico não fosse sério. Não fosse constrangedor, não fosse desastroso, não fosse insuportável. Afinal saímos de um longo e duro período de ditadura, lutando pela volta de nossa incipiente democracia, para cairmos novamente numa roubada, arquitetada por ilustríssimos desrepresentantes do povo que desastradamente elegemos para o Parlamento.

Além de continuarmos na luta pela democracia participativa, nem que seja aos berros pelos logradouros públicos, quem sabe mais alguém nos ouça e se junte a nós!, devemos nos preocupar pela educação e formação de nossas crianças. A construção de uma verdadeira república começa com elas, pois as versões falsas nós infelizmente já conhecemos.

Ou pela invenção de uma nova civilização como bem sentenciou nosso amigo latino-americano Pepe Mujica, um verdadeiro democrata e republicano. Pelo menos o sonho é livre e faz bem à luta e à esperança.

*colaborador da Carta Maior

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