Errâncias

Inocêncio tomou um certo susto quando a porta do consultório se abriu; contemplava perplexo, um pouco aéreo, na expectativa, provavelmente, de que fosse chamado. Esqueceu completamente, no entanto, que vira a paciente entrar, e portanto não seria chamado antes que ela saísse. A moça agradeceu alguém lá dentro e saiu.

– Tchau, dona Rosa, boa noite – disse ela, despedindo-se da secretária do doutor Armando. Voltando os olhos para Inocêncio, que tentava ao mesmo tempo disfarçar que a encarava, ela estendeu a ele, em um tom de voz mais baixo e entre os dentes, o cumprimento, abriu a porta e saiu.

Inocêncio suava um pouco. Olhava muito para as próprias mãos e, vez em quando, mirava, quase com o canto dos olhos, a televisão onde desfilavam-se as notícias do dia, com franca prioridade para o noticiário político nacional. Rosa, a secretária, arrumava algumas coisas em uma bolsa por trás do…

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